Búzios se destaca como polo de peixe fresco
Polícia na porta do restaurante: tensão e memórias
Chegar ao restaurante e encontrar uma viatura da Polícia Militar estacionada na porta foi o suficiente para me deixar apreensiva. Seria o prenúncio de uma demolição? Seria o fim de um capítulo importante da minha história e dos sabores que me acompanham há tantos anos? A simples ideia de ver apagados, diante dos meus olhos, tantos momentos marcantes vividos em Búzios, acabou comigo.
Búzios foi palco de inúmeras lembranças da minha juventude, especialmente nas décadas de 1980 e 1990. Passei boa parte desses anos em uma casa no Morro do Humaitá, vizinha à tradicional Pousada Casas Brancas. A residência, simples e despojada, tinha colchões simples, cortinas no lugar de portas de armário e nada de decoração — cenário perfeito para jovens curtirem o balneário. Desde que meus pais venderam o imóvel, voltar à região sempre ativa uma saudade imediata.
Minhas férias eram divididas entre praias como Ferradura, Tartaruga e João Fernandes, então ainda pouco frequentadas e de difícil acesso. Passava o dia nadando até cansar, descansava profundamente à tarde e, ao anoitecer, fazia o tradicional passeio pela Rua das Pedras, finalizando com um crepe no Chez Michou, meu luxo da época.
O contato com Búzios também me ensinou a apreciar peixes, algo raro em casa devido à aversão da minha mãe por frutos do mar. Foi lá que provei cavalinha, peixe-espada, xerelete e guaivira. Na Páscoa, a corvina era presença garantida na mesa, assim como sardinhas e enchovas frescas, sempre me despertando o apetite. Fico me perguntando por onde andam esses peixes hoje em dia.
Impactos da pesca industrial na cidade
Sem entrar no debate sobre supostas irregularidades que ameaçam estabelecimentos como o Rocka, é impossível ignorar a diminuição dos peixes frescos disponíveis, reflexo direto da pesca industrial que avança sobre os arredores de Búzios. O cenário mudou drasticamente.
Recentemente, voltei ao Rocka e, se não fosse pelo fim do feriado, teria retornado mais vezes. O cardápio segue apostando em ingredientes regionais, como o hommus de beterraba com mini-brócolis amarelo em picles, ovo de codorna e pão pita, uma entrada que nunca decepciona. Entre os principais, destaco o ceviche de dourado, beneficiado pela chegada do inverno, que aproxima o peixe da costa e renova o entusiasmo dos pescadores locais. O prato ganha personalidade com aroeira, batata-doce e milho tostado.
A cauda de lagosta, outro destaque, chega acompanhada de ajo blanco, água de coco, tartare de frutas e legumes, tudo finalizado com azeite de alho negro e ciboulette. Já o namorado grelhado, servido com farofa, purê de banana defumada, pak choi e chuchu, é uma celebração dos sabores da estação.
O encerramento da refeição ficou por conta da pavlova de doce de leite com coco, sorvete de leite queimado e bolo úmido de coco, escolha certeira do meu marido. Enquanto saboreávamos a sobremesa, funcionários dividiam impressões: apesar do otimismo, sentem que perderiam um ritual importante caso o restaurante precise mudar de endereço — o mergulho matinal no mar, realizado em grupo antes do expediente.
Xerelete: cozinha em ascensão
Nas minhas últimas visitas, o Xerelete, comandado por Bruno Katz, chamou atenção pelo frescor e técnica dos pratos, alguns com peixes capturados pelo próprio chef. A experiência começou com um marlim empanado, servido com maionese de algas e picles, e seguiu com cavala no leche de tigre, acompanhada de sorbet de manga espada e chips de batata-doce. O dourado do dia, preparado na brasa, veio harmonizado com mousseline de couve-flor, beurre blanc, redução de ervas e bottarga.
Uma das novidades do Xerelete é a instalação de uma câmara de maturação de peixes, iniciativa já vista em alguns restaurantes do Rio e que promete facilitar o trabalho com insumos frescos, sempre um desafio na região.
O desafio da pesca sustentável
A pesca industrial, com suas redes de quilômetros de extensão, ameaça os estoques pesqueiros e o modo de vida local tanto quanto as construções irregulares. Embora seja compreensível a dificuldade dos restaurantes em depender apenas da pesca artesanal, é preocupante ver chefs apostando em produtos industriais, alheios ao impacto dessa escolha na sobrevivência dos pescadores locais.
É decepcionante abrir um cardápio e encontrar peixes fora de época, de procedência duvidosa ou até salmão, peixe exótico à região, em uma cidade que construiu sua fama sobre a pesca artesanal e a paisagem de barcos coloridos na Orla Bardot. O risco é transformar Búzios em um cenário artificial, esvaziado de autenticidade.
Por fim, o alarme em frente ao Rocka se revelou infundado — a viatura era apenas uma presença rotineira, segundo os garçons. Naquele dia, resisti à tentação de perder-me na vista do mar e concentrei-me no salão, ciente de que o valor do restaurante vai muito além da paisagem. O desejo é que estabelecimentos que priorizam o pescado local sejam cada vez mais reconhecidos e apoiados, preservando não só o sabor, mas também a história e a cultura de Búzios.
