Sommelières Compartilham Experiências e Desafios no Dia da Mulher
No universo do vinho, a presença masculina sempre foi predominante. No entanto, no Dia Internacional da Mulher, a proposta foi inverter essa lógica: dar voz a quem, por tanto tempo, foi deixada de lado. Para isso, quatro sommelières de referência no Rio de Janeiro – Maíra Freire (Lasai), Cecilia Aldaz (ORO), Deise Novakoski (pioneira na área no Brasil) e Elaine de Oliveira (Marie Claire) – responderam a cinco perguntas sobre desafios, estereótipos e conquistas femininas no setor.
Sensibilidade e repertório: o vinho além do gênero
Quando questionadas se existe algo no mundo do vinho que só as mulheres percebem, as respostas convergiram para um ponto: não há uma diferença absoluta. Cecilia Aldaz aponta que, mais do que o gênero, fatores como experiência, treino sensorial e bagagem cultural são determinantes para a leitura de um vinho. Elaine de Oliveira destaca que, embora pesquisas apontem uma sensibilidade olfativa média maior entre mulheres, isso não garante vantagem sem dedicação ao estudo. Já Deise Novakoski ressalta que, em sua experiência, mulheres costumam memorizar melhor nuances olfativas. Maíra Freire, por sua vez, pondera que a percepção de maior sensibilidade feminina pode ter raízes em padrões culturais e sociais, ligados ao papel tradicional da mulher em contextos como a cozinha e o uso de perfumes.
Romper com rótulos antigos
Sobre estereótipos, todas foram unânimes: ainda é preciso desconstruir a ideia de que existe um perfil único de mulher no vinho. Cecilia destaca o equívoco de associar mulheres à delicadeza ou ao excesso de sensibilidade, e lembra que a diversidade de perfis femininos na profissão é imensa. Deise critica o uso de termos como “vinho feminino” ou “bebida de mulher”, defendendo descrições técnicas e objetivas. Elaine rechaça a noção de que mulheres só apreciam vinhos leves ou espumantes e reforça: competência não tem gênero. Maíra lamenta que ainda se relacione mulheres a vinhos adocicados ou rosés, perpetuando uma visão antiquada.
Dicas sinceras para quem está começando
Perguntadas sobre conselhos para jovens mulheres que desejam ingressar na área, as sommelières enfatizam a necessidade de estudo, autoconhecimento e rede de apoio. Cecilia recomenda dedicação além do esperado e construção de uma trajetória baseada em autenticidade, sem se comparar ou se opor aos colegas. Deise lembra de cuidados práticos: roupas discretas e evitar perfumes que possam interferir na degustação. Elaine alerta que o início pode ser mais difícil para mulheres, com constantes testes e dúvidas, mas reforça a importância de autenticidade e personalidade. Maíra sugere buscar referências femininas e fortalecer laços com outras mulheres da área.
Vivências de machismo e superação
No relato das experiências mais difíceis, as profissionais narram episódios de desconfiança, exclusão e preconceito. Cecilia relata situações em que só teve sua opinião validada após a confirmação de um colega homem, e acredita que o tempo e a humildade são fundamentais para enfrentar essas barreiras. Deise conta ter sido preterida por gênero e, mais tarde, por idade, destacando que a luta por espaço é contínua. Elaine lembra de uma ocasião em que foi descartada por um cliente que não acreditava em sua competência. Maíra enfatiza que, historicamente, as mulheres não eram convidadas para discutir vinho, mas destaca que a busca por novos olhares e práticas vem mudando esse cenário.
Vantagens e obstáculos do ponto de vista feminino
Sobre possíveis vantagens, as respostas mostram nuances. Deise vê mérito em romper a hegemonia masculina e fazer diferença em um setor fechado. Elaine ressalta a capacidade de criar conexões mais empáticas, tornando o vinho mais acessível e menos intimidador. Maíra lembra que, por muito tempo, mulheres foram tratadas como figuras decorativas em restaurantes, mas celebra as recentes conquistas, embora reconheça que o desafio persiste em muitos contextos.
Por fim, as sommelières concordam: o vinho ensina que maturidade e equilíbrio são essenciais, tanto na taça quanto no mercado de trabalho. O talento feminino já está presente; o que falta é o olhar de quem ainda insiste em duvidar. Neste 8 de março, ouvir essas vozes é mais do que celebrar – é aprender e transformar.
