Saúde & Bem Estar

Contas e insônia: como as finanças afetam o sono

Especialista em sono Gleison Guimarães explica como o estresse financeiro afeta o corpo e a mente

Perder o sono pensando em dívidas, acordar de madrugada com a mente acelerada ou não conseguir relaxar antes de dormir são situações cada vez mais comuns para os brasileiros. De acordo com o pneumologista e professor da UFRJ Gleison Guimarães, autor do livro Supersono, o descanso noturno e a vida financeira caminham lado a lado. “O estresse crônico, provocado pelas pressões econômicas, tem se tornado uma das principais causas da privação de sono”, explica.

Pesquisas recentes confirmam essa ligação. O Instituto Conhecimento Liberta revelou, em abril de 2024, que 62% da população considera a falta de dinheiro a maior preocupação do dia a dia. Já um levantamento da plataforma Onze, publicado pela Veja, mostrou que dois em cada três brasileiros sofreram impacto na saúde mental por questões financeiras. À noite, quando o corpo deveria se recuperar, o cérebro permanece em alerta, dificultando o sono profundo.

Segundo Guimarães, o sono só acontece plenamente em um ambiente emocional seguro. “Sob tensão, o cérebro aciona mecanismos de defesa, produzindo cortisol e adrenalina. Esse estado de vigilância atrapalha tanto o início quanto a manutenção do sono”, afirma.

As consequências se refletem no dia seguinte: cansaço, queda na memória, dificuldade de concentração e decisões financeiras ainda piores. “Forma-se um ciclo vicioso: o estresse com o dinheiro gera insônia, e a falta de sono aumenta a ansiedade e reduz o autocontrole. O resultado é um colapso silencioso que afeta a saúde física, mental e econômica do indivíduo.”

O médico alerta ainda que a insônia relacionada a preocupações financeiras pode evoluir para quadros de depressão, ansiedade e uso abusivo de álcool ou medicamentos para induzir o sono. “São saídas perigosas que pioram a situação e comprometem a saúde global do paciente.”

Para ele, a solução passa por um cuidado multidisciplinar. “Tratar apenas a insônia não basta. É preciso atuar nas raízes do problema, que muitas vezes estão no excesso de responsabilidades, na instabilidade financeira e na falta de apoio psicológico. Sono não é um interruptor: é um estado fisiológico que depende de equilíbrio e rotina.”

O especialista defende a integração entre educação financeira, políticas públicas de saúde mental e acesso facilitado a acompanhamento psicológico. “Enquanto o sono for visto como algo isolado da vida cotidiana, milhões de pessoas vão continuar deitando o corpo na cama, mas mantendo a mente em estado de alerta.”

A recomendação é clara: procurar ajuda o quanto antes. “Ignorar a qualidade do sono é tão arriscado quanto dirigir sem freios. Ele é um dos pilares da saúde e deve ser protegido”, conclui.

No Brasil, muitas noites têm sido ocupadas pelo peso das dívidas. Reconhecer essa relação é o primeiro passo para devolver à madrugada seu propósito essencial: restaurar a energia do corpo e a serenidade da mente.

Fonte: Sarah Monteiro

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