Carnaval

Padre Miguel: Ala Inova e Surpreende Público na Sapucaí

Unidos de Padre Miguel aposta na ousadia com a ala “O Gritador” e leva luto e memória à Sapucaí

O Carnaval do Rio é tradicionalmente um espetáculo de cores vibrantes, fantasias brilhantes e alegria sem limites. Porém, a Unidos de Padre Miguel decidiu inovar no desfile deste ano, colocando a memória e a reflexão no centro da avenida. A escola surpreendeu público e jurados com a Ala 19, conhecida como “O Gritador”, que se destacou pelo visual sombrio e por trazer um significado profundo à apresentação.

Rompendo com o vermelho e branco clássico da agremiação, a ala desfilou envolta em preto e branco, carregando um estandarte encimado por uma caveira. O visual impactante foi escolhido para dar vida a uma figura do folclore nordestino: um espírito errante que, segundo a tradição, grita nas noites e transita entre o mundo dos vivos e dos mortos. A imagem, ao mesmo tempo assustadora e cheia de mistério, trouxe um novo tom à festa.

A proposta dialogou diretamente com o enredo deste ano, “Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema”, que narra a resistência indígena durante a invasão holandesa e a trajetória da guerreira Clara Camarão. O preto e branco da Ala 19 evocou o luto pelas vidas perdidas e reforçou a importância da memória no contexto carnavalesco, mostrando que a celebração também pode ser espaço para reverência e espiritualidade. A escola deixou claro que é possível unir brilho e reflexão, sem esquecer as dores do passado.

Na concentração e ao longo da Marquês de Sapucaí, a presença de “O Gritador” causou surpresa e curiosidade. Veterano na Unidos de Padre Miguel, José Feital, de 65 anos, ressaltou o impacto da fantasia: “Chegar com esse traje foi uma experiência única. As crianças sentem medo, mas também ficam fascinadas. Precisamos explicar o significado da personagem e das perdas históricas que representamos. É um desafio, mas também um orgulho”, contou.

Luciana Santana, estreante na escola, relatou a emoção de desfilar com a fantasia diferenciada: “As pessoas ficam intrigadas e encantadas. É difícil descrever o sentimento de estar ali, representando tanto simbolismo”. Pamela Reis, há dois anos no grupo, destacou as perguntas do público: “Muita gente quer saber de qual escola somos, já que fugimos das cores comuns. Quando explicamos a história, eles se encantam ainda mais”. Para Ewerton da Silveira, com mais de uma década de desfiles pela agremiação, o efeito visual foi marcante: “O olhar das pessoas é de surpresa total. Dá trabalho segurar o estandarte e atravessar a avenida, mas a reação compensa”.

A aposta da Unidos de Padre Miguel em fugir do convencional não apenas enriqueceu o desfile, mas trouxe uma camada extra de emoção à apresentação. A Ala 19, com seu contraste forte, simbolizou a fronteira entre alegria e dor, entre o passado e o presente. Mostrou que o Carnaval também é feito de respeito pelas raízes e pelas histórias de luta que moldaram a cultura brasileira. Ao transformar o medo em encanto, a escola reafirmou que celebrar é, antes de tudo, lembrar e honrar quem veio antes.

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