Carnaval

Vigário Geral surpreende com criatividade, mas enredo divide opiniões no desfile

Vigário Geral fecha a primeira noite da Série Ouro com desfile ousado e inventivo na Sapucaí

A Acadêmicos de Vigário Geral encerrou os desfiles de sábado na Marquês de Sapucaí, durante a primeira noite da Série Ouro do Carnaval 2024, e chamou atenção pela ousadia e criatividade de sua apresentação. Sob a direção artística dos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, a escola levou para a avenida o enredo “Brasil Incógnito – O Que Os Seus Olhos Não Veem, A Minha Imaginação Reinventa”. A proposta convidou o público a revisitar a história brasileira através das lentes da fantasia, inspirando-se em monstros e seres mitológicos concebidos pela imaginação dos colonizadores.

Enredo aposta em sátira e originalidade

O fio condutor do desfile transformou criaturas lendárias em protagonistas irreverentes, oferecendo uma leitura crítica e bem-humorada da formação do Brasil. A narrativa foi estruturada em três momentos: o primeiro explorou o universo marítimo e o choque do europeu com as águas misteriosas do Atlântico, recheado de figuras fantásticas; no segundo setor, a floresta brasileira e a chegada de invasores europeus ganharam vida a partir de um imaginário distorcido, com destaque para personagens indígenas e bandeirantes; já o terceiro setor ressignificou esses “monstros”, elevando-os a símbolos da cultura nacional nos sertões e folguedos populares.

Apesar do conceito diferenciado, a transposição do enredo para as alegorias e fantasias, principalmente na segunda metade do desfile, não foi totalmente assimilada pelo público, o que pode ter dificultado a compreensão da narrativa na avenida.

Alegorias e fantasias impressionam após superação de adversidades

Mesmo após enfrentar um incêndio nos barracões durante o pré-carnaval, a escola conseguiu apresentar três alegorias de destaque, exibindo criatividade e apuro visual. O carro abre-alas, “Imponente Brasil Submerso”, homenageou os mitos do mar com uma caravela fantástica integrada à fauna marinha, traduzindo o temor diante do desconhecido. Na sequência, a alegoria “Quimérico Nativo” retratou a riqueza das florestas tropicais, com abundância de plantas e animais típicos. Por fim, “Malassombro Sertanejo”, inspirada na literatura de cordel e em nomes como J. Borges, trouxe o Cramulhão como figura central, representando os medos do sertão nordestino.

As fantasias, assinadas pela dupla de carnavalescos, surpreenderam pelo uso de materiais alternativos e pela evolução cromática, que percorreu o azul do oceano, passando pelos tons dourados da floresta e chegando às cores vibrantes do sertão. Destaque para a ala das baianas, que se inspirou nos relatos sertanistas e na tradição do cordel.

Samba-enredo e musicalidade empolgam a avenida

O samba-enredo, composto por Verônica dos Tambores e parceiros, captou com leveza e humor o tom satírico do tema. A bateria, comandada pelo mestre Luygui Silva, imprimiu ritmo contagiante, enquanto o intérprete Danilo Cezar, pelo terceiro ano à frente do carro de som, demonstrou potência vocal e carisma, conduzindo o desfile com segurança. Os refrães “Se a canoa não virar…” e “Deixa o chão tremer…” embalaram os foliões e garantiram momentos de grande energia. No entanto, em algumas alas, foi percebida uma queda no volume do canto coletivo, o que pode pesar na avaliação dos jurados.

Detalhes marcantes e desafios enfrentados

A comissão de frente, batizada de “Sátira do Pequeno Invasor” e liderada por Handerson Big, trouxe uma proposta irreverente, com um navegador português interagindo com um globo terrestre. A execução, porém, foi prejudicada pela iluminação da Sapucaí, que comprometeu a visualização de movimentos importantes da coreografia.

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Johny Matos e Isabela Moura, apresentou a coreografia “Dança das Marés” com intensidade, embora a porta-bandeira tenha tido dificuldades em manter o pavilhão totalmente aberto em alguns momentos do primeiro módulo de julgamento.

No quesito evolução, a escola começou com animação e leveza, mas enfrentou espaçamentos e uma breve interrupção nos setores finais, pontos que podem ser considerados pelos avaliadores.

A bateria desfilou caracterizada como “Visagens da Mata”, representando seres místicos das florestas, enquanto a rainha Patrícia Souza prestou homenagem aos rituais indígenas e os passistas encarnaram a onça-pintada. A presidente Betinha fez questão de ressaltar o trabalho da equipe, que superou adversidades para colocar o desfile na avenida.

Com um tempo de desfile de 55 minutos, a Vigário Geral encerrou a noite propondo uma reflexão irreverente sobre a história nacional, misturando inovação, crítica social e arte em sua passagem pela Sapucaí.

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