Gastronomia

Vinho da casa ganha status e passa a ser bebida premium nos restaurantes

Por muito tempo, a expressão “vinho da casa” era sinônimo de uma escolha simples e econômica, geralmente servida em jarra e vista apenas como uma alternativa acessível ao cliente. No entanto, esse cenário passou por profundas transformações. Hoje, restaurantes enxergam nos rótulos próprios uma poderosa ferramenta para reforçar sua identidade, fidelizar a clientela e destacar seus conceitos gastronômicos.

A busca por exclusividade e autenticidade levou muitos estabelecimentos a estabelecer parcerias estratégicas com vinícolas e cooperativas, tanto nacionais quanto internacionais. Na Casa da Glória, por exemplo, foi lançado um espumante em colaboração com a Vinícola Megiolaro, do Rio Grande do Sul, com rótulo assinado pelo ilustrador Felipe Guga. Já o bar de vinhos Libô apostou em um moscato orgânico da vinícola De Cezaro, alinhando a bebida ao compromisso da casa com produtores locais e práticas de mínima intervenção. “Queríamos um vinho acessível, cotidiano, mas com a nossa identidade”, explica a sommelière Maíra Freire, eleita a melhor do ano no guia VEJA RIO Comer & Beber.

Se antes a principal motivação era a margem de lucro, atualmente muitos restaurantes preferem abrir mão da rentabilidade em prol de uma experiência diferenciada para o consumidor. O Grupo BestFork, responsável pelo Giuseppe Grill, ilustra esse movimento com rótulos próprios desenvolvidos junto à chilena Miguel Torres. “Mesmo sendo o item de menor margem, priorizamos oferecer a melhor experiência possível”, destaca o restaurateur Marcelo Torres, que viu o lote inicial de 3 mil garrafas esgotar rapidamente.

O fenômeno também ganhou força em grandes redes, como a pizzaria Bráz, cujo chianti, servido na tradicional garrafa envolta em palha, impulsionou a criação de uma família de seis rótulos, responsáveis por metade das vendas de vinho da casa. No restaurante italiano Nino, as versões próprias atingiram 52% das garrafas comercializadas no início deste ano. Para a sommelière Erika Renzetti, esse sucesso está diretamente ligado à harmonia entre os vinhos e a culinária do restaurante: “Nossas opções são leves e frescas, e os clientes perceberam essa sintonia”.

O movimento também impulsiona o setor vitivinícola brasileiro. O Cortés Asador, por exemplo, reuniu todo seu time para degustar diferentes amostras antes de fechar a parceria com a gaúcha areA15. O objetivo era garantir que os vinhos refletissem a proposta do restaurante e valorizassem a produção nacional. “Estamos em busca de microvinícolas com jovens enólogos para exaltar o vinho brasileiro, que melhora a cada safra”, afirma a sommelière Luciana Bernardes.

O perfil do consumidor também mudou: além de buscar boa comida, ele valoriza histórias, autenticidade e conexão com a marca. O recém-inaugurado Inexplicável Vinhos, em Botafogo, já nasceu com nove rótulos próprios — cinco de entrada e quatro exclusivos, produzidos em pequenas quantidades. Em agosto, a casa vai levar clientes à Serra Gaúcha para participarem da escolha de um novo blend, reforçando a experiência personalizada.

O vinho da casa, portanto, deixou de ser mero coadjuvante e se tornou símbolo de personalidade, traduzindo a essência de cada restaurante e criando novas oportunidades de relacionamento com o público.

Confira alguns exemplos de rótulos próprios em bares e restaurantes:

  • Giuseppe Grill: Desenvolveu, em parceria com a chilena Miguel Torres, um sauvignon blanc e um cabernet sauvignon (R$ 156 cada).
  • Bráz: Oferece dois brancos, um rosé e três tintos, com destaque para o Bráz Chianti DOCG, produzido com uvas sangiovese e canaiolo (R$ 189).
  • Gajos d’Ouro: Possui quatro rótulos em colaboração com a portuguesa Casal da Coelheira, do Tejo, do Clássico Branco (R$ 140) ao Reserva Tinto (R$ 420).
  • Casa da Glória: Espumante brut feito com chardonnay, criado com a Megiolaro (R$ 118).
  • Libô: Moscato orgânico de Farroupilha (RS), servido em taça (R$ 38) ou garrafa (R$ 165).
  • Mamma Jamma: Três opções: MJ Primitivo Puglia (Itália, R$ 126), MJ Malbec Reserva (Argentina, R$ 119) e MJ Carménère (Chile, R$ 119).
  • Nino: Rótulos tintos e brancos desenvolvidos com a Famiglia Cotarella (Itália), disponíveis em taça (R$ 35) ou garrafa (R$ 160).
  • Locanda São José: Oferece três espumantes, dois tintos e um branco. O brut rosé, em parceria com Adolfo Lona (RS), custa R$ 156.
  • Cortés Asador: Tem o Corte Bordalês e o Blends (cabernet sauvignon com marselan, 24 meses de barrica), ambos por R$ 189.
  • Gurumê: Chardonnay em colaboração com Don Abel (RS, R$ 103) e merlot elaborado pelo enólogo Adolfo Lona (R$ 112).

O vinho da casa, agora, é muito mais do que uma escolha econômica: tornou-se uma extensão da cultura e da proposta de cada endereço gastronômico.

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